Deus, Alice e a Matrix

Publicado: 11 de janeiro de 2011 em Vã Filosofia
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Autor: Barros

Fonte: DeusILUSÃO

Introdução: Alex Rodrigues

Um dos motivos que me levou a trazer este ótimo texto do Barros foi bem pessoal. Quando li o relato sobre “os tempos de católico”, imediatamente me identifiquei com algumas das situações que ele descreve, pois passei por muita coisa parecida. Não é a primeira vez (e nem será a última) que trago textos que, de certa forma, parecem refletir uma das muitas estradas que me levou à descrença em deuses.

O outro motivo foi a utilização de ícones da cultura para nos fazer refletir, recurso que muito me agrada, pois parece elevar a minha capacidade atenção ao ler um texto, na medida em que mistura elementos tão cotidianos para mim como a literatura e o cinema com reflexões tão complexas quanto o efeito das religiões na vida das pessoas.

ATENÇÃO: O texto abaixo contém revelações sobre os contos de Lewis Carroll e sobre o filme Matrix. Achei importante deixar o aviso de spoiler ;-)

Boa leitura!

******************************

“E desde então”, prosseguiu o Chapeleiro num tom pesaroso, “ele [o tempo] não faz mais nada que eu peço! Agora é sempre 6 da tarde!”

Um pensamento brilhante ocorreu à Alice. “Essa é a razão de todas essas coisas de chá estarem postas aqui fora?”, ela perguntou.

“Sim, é por isso”, disse o Chapeleiro com um suspiro. “É sempre hora do chá, o que não nos deixa tempo para lavar a louça entre as refeições.”

“Então vocês sempre ficam mudando de lugar, eu suponho”, disse Alice.

“Exatamente”, disse o Chapeleiro, “à medida que as coisas vão sendo usadas.”

“Mas o que acontece quando vocês dão uma volta completa na mesa?” Alice resolveu perguntar.

“Acho que devemos mudar de assunto”, a Lebre Maluca interrompeu, bocejando.

ALICE’S ADVENTURES IN WONDERLAND & THROUGH THE LOOKING-GLASS. Carroll, Lewis. A Gignet Classic: New York, 2000. pág. 72. Tradução: Barros.

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As aventuras de Alice foram apenas um sonho. Ela, entretanto, nunca desconfiou que estava sonhando, assim como nós mesmos também não temos a consciência de que estamos dentro de um sonho, mesmo se sonhamos que estamos indo ao cinema completamente sem roupa. Quando estamos sonhando, a realidade passa a ser a realidade do sonho.

Eu escolhi o diálogo acima para chamar a atenção para o fato de que, mesmo sonhando, Alice percebeu que alguma coisa não fazia sentido: ora, se eles nunca lavavam a louça em que tomavam chá, e para ter louça limpa eles tinham que mudar de assento, o que acontecia quando usavam todos os lugares? Pareceu óbvio a Alice que, ao darem uma volta completa na mesa, eles acabariam chegando aonde haviam começado e encontrariam lá a louça suja que haviam deixado. E foi isso que ela perguntou. Mas ninguém respondeu; porque a resposta seria: “Não esquenta a cabeça: sonhos não têm esse tipo de lógica” — ou lógica nenhuma; e a surpresa do fim do livro seria, assim, indevidamente antecipada. Por isso a interrupção da Lebre Maluca.

Minha professora de catecismo fez isso comigo várias vezes. Ante as muitas perguntas que eu fazia durante as aulas, ela dava uma de Lebre Maluca e desconversava.

“Irmã, por que todo mundo abomina o ato de Judas se, de acordo com o plano divino, Jesus teria que ser traído por ele para ser crucificado e nos salvar?”

“Irmã, a senhora disse que o sofrimento que há no mundo faz parte do plano de Deus, mas, sendo Todo-Poderoso, Deus não poderia ter feito um plano sem que houvesse nenhum sofrimento?”

“Irmã, se Jesus e Deus são um só, então, por que Jesus ficou em dúvida na cruz sobre se Deus o tinha abandonado? Se Jesus era, também, Deus, ele não teria que saber que ele mesmo não teria abandonado a si próprio?”

“Irmã, a senhora disse que as pessoas só irão para o Céu, para o Inferno ou Purgatório depois do Juízo Final. Para onde vão as almas nesse meio tempo?”

“Irmã, por que Deus teve que descansar no sétimo dia?”

E por aí afora. A questão é que ela nunca respondia. Ela falava e falava sobre um monte de coisas, sobre como Deus era bom, sobre como ele tinha tudo planejado, sobre como precisávamos ter fé, lia esse e aquele versículo da Bíblia e eu acabava ficando sem as minhas respostas. Como fez a Lebre Maluca, ela desconversava e tentava me manter no mesmo sonho que ela.

Porque se todos sonham o mesmo sonho ao mesmo tempo, por mais maluco ou maravilhoso que seja, ele passa a ser “a” realidade.

Mesmo quando eu me considerava católico, andava longe de ser um cristão convicto. Até onde eu lembro, eu nunca realmente acreditei naquilo tudo. Não completamente. Como fez Alice na mesa do chá, eu vivia fazendo perguntas inconvenientes, e as Lebres Malucas que me pediam para mudar de assunto eram tantas que eu comecei a desconfiar que alguma coisa estava errada. Ou comigo, ou com todo o resto.

Não me atrevia a fazer esse tipo de questionamento a minha família, afinal, foram eles todos que invadiram meu pequeno e desprotegido cérebro e colocaram a coisa toda lá dentro; mas achei que a freira encarregada de me preparar para a primeira comunhão seria a pessoa ideal a quem dirigir tais perguntas. Não era. Eu concluí meu catecismo com uma sensação, até então inexplicável, que só poderia ser descrita como desconforto intelectual. Era como se eu não tivesse conseguido entender o que, aparentemente, todos os outros meus colegas de classe haviam entendido, ou — como penso hoje — tivesse entendido algo que nenhum deles conseguiu entender.

De uma forma ou de outra, acho que eu fui o único da minha turma que entrou pela primeira vez na “fila da hóstia” sem nenhum entusiasmo. Que eu lembre, eu só estava curioso para saber se ela era salgada ou doce. E enquanto eu voltava para o meu lugar, ainda com a hóstia irritantemente colada no céu da minha boca, a parte do meu cérebro que estava sendo treinada para a religião deixou escapar isso: “É um tipo de massa de pão!” E o resto dele respondeu em coro: “O que você esperava? Um naco de carne do corpo de uma pessoa? Eca!”.

Eu realmente passei muito tempo sem entender o que estava acontecendo. Eu não tinha fé e não entendia por que me preocupava com isso; eu não acreditava em Deus e não sabia por que fingia que acreditava; eu não era em nada religioso e me culpava por não ser… Afinal, por que ser tão diferente? Por que não ser igual a todo mundo?

Eu, que não sou erudito, nem tenho uma inteligência muito confiável, não consegui encontrar sozinho uma resposta. Somente muitos anos depois do meu catecismo, quando assisti pela primeira vez no cinema às aventuras de uma outra Alice — a versão do século XXI — eu pude tecer, em retrospecto, uma analogia, e entender o que se passou comigo durante aquela época da minha vida. Eu ficaria muito orgulhoso de citar aqui o nome de um filósofo ou grande escritor que tivesse me feito assimilar o que significava a religião, mas foi com o filme “The Matrix” que eu finalmente entendi.

No domingo seguinte, eu fui assistir a uma missa. Sentei bem no último banco de uma igreja lotada. Não rezei, não cantei, não comunguei. Eu estava lá apenas para uma cerimônia muito particular: seria a primeira vez que eu iria “ver” a Matrix. E eu vi: a religião precisa mesmo ser compartilhada; precisa ser vivida em grupo. Uma pessoa isolada chegaria sozinha à conclusão de que suas orações são inúteis; seus rituais, tolos; as letras dos seus hinos, absurdas; e seus dogmas, algo muito próximo do tipo de mágica com que se distrai as crianças. Você precisa de reforço para acreditar. Você precisa estar conectado a um mundo de gente que também acredita; e eles serão tantos e estarão tão fortemente convencidos de suas crenças que você, quase que inevitavelmente, vai achar que eles todos não podem estar errados e só você, certo. Você não vai querer ser diferente; você vai querer fazer parte do rebanho. Talvez venha disso o carinhoso epíteto de “ovelhas”.

Durante cerca de uma hora, eu assisti a uma missa católica, a qual eu estava tão acostumado, mas só que de um outro ponto de vista. Foi como se, depois de tanto tempo perdido numa floresta densa, a gravidade tivesse deixado de existir e eu pudesse flutuar para muito acima da copa das árvores, apreciando o mundo de um novo ângulo, de uma nova dimensão. (Não foi só você que brincou de Super-Homem, Neo…)

Eu entendi, com alívio, que não havia nada de errado comigo, nem nunca houvera. Eu apenas não fazia mais parte daquele mundo. Eu estava desconectado da Matrix.

E foi bem ali, naquele banco de igreja, que eu vi confirmada a minha analogia com o filme; foi quando e onde eu compreendi o porquê de todo aquele desconforto, inquietação e dúvida; foi quando e onde, pela primeira vez, eu percebi a razão de achar aquele mundo tão estranho e inadequado para mim. Foi lá que encerrei minhas aventuras pelo País das Maravilhas. Mas não fiquei triste. Ninguém deveria ficar triste por ter despertado de um sonho. Mesmo se fosse um sonho bom; o que não era o caso.

Levantei antes do fim da missa. Estava já bem perto da porta e, enquanto saía, voltei os olhos involuntariamente na direção da estátua de um homem seminu atrás do altar. Por um breve instante, percebi que aquela parte do meu cérebro que desde muito tempo atrás habitara aquele mundo teve vontade de acenar um adeus de despedida. Mas eu a contive a tempo e acrescentei — desnecessariamente sarcástico, confesso — que o homem estava com as duas mãos pregadas: não iria acenar de volta.

“O vazio que os ateus sentem nas suas vidas é exatamente da forma e do tamanho de Deus.”

Sou capaz de apostar que todo ateu já ouviu isso de alguém. Ou isso, ou algo que o valha.

Eu só posso falar por mim: sou ateu e minha vida não é vazia. O que eu sinto é uma certa inquietude — e isso não tem nada a ver com vazio — cuja causa é a nossa condição única, como espécie, de questionar, de fazer perguntas. Como não temos respostas para a grande maioria das perguntas que fazemos, e como a nossa capacidade de fazer perguntas é infinitamente maior do que a nossa pequena habilidade recém-adquirida de respondê-las, talvez tenhamos um certo ar contemplativo, introspectivo, distante. E já que os religiosos não estão muito familiarizados com a atitude de racionalizar, pois eles têm respostas prontas para tudo, bem como tudo no mundo deles se explica com mágica, eles interpretam esse comportamento como sintoma de algum distúrbio mental, ou como sinal de tendência ao suicídio. Eles chamam de “vazio”, mas é só um eufemismo.

As pessoas, normalmente, não suportam o peso dessa inquietação intelectual e têm Deus como resposta única para tudo, sem levarem em conta que a origem e o propósito de Deus levantam muito mais questões do que respondem. Mas Deus é Deus. O Alfa e o Ômega, o Início e o Fim, etc., etc., etc., e isso basta para elas. Mas para mim, como para muitos outros, isso não basta. Ou, melhor dizendo: isso não serve como resposta.

Geralmente, quando alguém descobre que sou ateu, a primeira pergunta que me faz é esta: “Ora, ateu!? E quem você acha que criou tudo isso?”, e a pessoa espalma a mão para o céu. Apenas para testar se vale a pena iniciar um debate, eu costumo responder com outra pergunta:

— E por que você acha que “tudo isso” precisaria ter sido “criado”?

— Ora! Como “tudo isso” poderia ter vindo do nada?

— E quem criou, então, foi Deus?

— Claro.

— E quem criou Deus?

— Deus sempre existiu.

— E você não poderia supor que “tudo isso”sempre existiu?

A atitude da pessoa nesse ponto me permite avaliar se dá para continuar a conversa ou se é hora de bater em retirada. Pessoas religiosas podem se tornar bastante violentas de uma hora para outra. E isso é por demais compreensível: Deus está incrustado no cérebro deles. A ideia de se desfazer de Deus lhes desperta, no inconsciente, o medo que sempre se associa à expectativa da dor, pois perder parte do corpo, geralmente, envolve dor. Não criticaria ninguém por se estrebuchar enquanto estão tentando arrancar uma parte qualquer do seu próprio corpo.

Eles farão tudo para continuar acreditando. Não importa o que aconteça. Se um homem tinha uma entrevista de emprego e saiu de casa atrasado, mas o ônibus chegou no ponto bem na hora em que ele também chegava, ele irá atribuir a Deus essa graça. Como se Deus tivesse cronometrado tudo, atrasado certas coisas, adiantado outras só para o ônibus passar exatamente naquela hora em que ele mais precisava. Mas se ele, ao voltar para casa, descobrir que sua filhinha de 4 anos foi estuprada por dois homens e morta asfixiada com folhas e terra na sua garganta, como aconteceu há algum tempo na região metropolitana da cidade onde moro, ele irá, certamente, como todas as pessoas de fé que tentarão consolá-lo, atribuir aquilo ao Diabo. Eu, por mim, não me atreveria a perguntar para um pai nessa situação se ele não preferiria ter um Deus que se importasse mais com a sua filhinha de 4 anos do que com os horários dos ônibus.

As outras opções disponíveis são ainda mais estúpidas: Deus escreve certo por linhas tortas/isso faz parte do plano de Deus/são os desígnios de Deus/Deus está testando a minha fé/e por aí vai…

Eu mesmo não poderia inventar um Deus mais ridículo, mais criminoso, mais malévolo, nem mais mesquinho do que esse.

O apelo mais forte da religião é, sem dúvida, sua promessa de vida após a morte. Essa promessa é tão poderosa não só porque é tentadora, por si, mas porque reverbera em nosso ser até o nível dos genes, pois é esse o seu objetivo primordial: continuar existindo, mesmo depois que o corpo no qual eles temporariamente habitaram devolva, separadamente, todos os seus átomos para a Terra.

Acreditar que existe um lugar para onde ir depois da morte e continuar a existir lá pode ser extremamente reconfortante. Não sei de nenhuma religião que não prometa um tipo de paraíso para além do túmulo. (Esqueçamos o Inferno, por ora, pois as pessoas que acreditam em vida após a morte também fazem questão de esquecer a possibilidade de terem uma vida-pós-morte lá.) E as pessoas fazem de tudo para acreditar nisso.

Eu costumava ver um programa americano na TV paga em que um médium num palco (porque aquilo era mesmo um “show”) alegava fazer contato com os parentes mortos das pessoas na plateia. Era algo mais ou menos assim:

— Sinto que um espírito está tentando estabelecer contato… e seu nome começa com a letra M. Alguém na plateia perdeu um ente querido cujo nome começa com a letra M?

— Sim, eu! Meu irmão Michael.

— Pois ele está aqui, querida. Ele diz que está bem, muito feliz, que está cuidando de você e olhando para você de onde ele está…

As pessoas na plateia não se importaram de perguntar como o médium “ouviu” o defunto dizer todas aquelas frases para a irmã, se, no início, só tinha conseguido ouvir que o dito cujo tinha o nome começado com a letra M. Talvez elas pensem que, depois que aparece alguém com os olhos cheios d’água, o download fica mais eficiente.

Com Zíbia Gasparetto a coisa muda. Ela escreve livros psicografados e adquiriu fama e fortuna com eles. Numa entrevista recente, ela disse que é muito fácil o seu trabalho: ela é apenas uma “secretária” que digita os textos ditados pelo seu mentor, o espírito Lucius, ou diretamente dos defunto-autores, tipo Brás Cubas. (Gente que, em vida, nunca se importou em escrever sequer um diário. Talvez o Céu seja um lugar muito tedioso e onde se proíbe o uso de laptops, daí os pobres dos defuntos precisam terceirizar o seu hobby.) Ela, então, senta-se em frente do computador, põe uma música suave e começa a escrever. Na época da entrevista, estava escrevendo três livros ao mesmo tempo, e dedicava dois dias por semana a cada um deles. Para continuar uma história de onde a havia deixado, bastava ler a última frase digitada, que o defunto-autor correspondente se aproximava e continuava dali. Com Zíbia, suponho que seja mais ou menos assim:

— Ei, desculpe, mas você escreveu ideia sem acento. Queira corrigir por favor, sim?

— Não, meu caro Lucius, é assim mesmo agora. Mudou a ortografia do português. Vocês aí em cima não estão sabendo?

— Foi mesmo? Não, não chegou nada aqui ainda. Na verdade, eu morri já há muito tempo e só há pouco que consegui me adaptar à reforma ortográfica de 1971… Já fizeram outra, foi? Nossa! assim fica difícil um espírito ganhar a vida como escritor…

— Lucius, querido, você já está morto. Quem precisa ganhar a vida sou eu. Deixemos de conversa mole. Continue com a história e deixe os acentos por minha conta.

Eu poderia concluir três coisas muito interessantes:

1ª se Zíbia Gasparetto assumisse o lugar do médium americano ficaria infinitamente mais rica, pois me parece que ela usa um tipo de conexão banda larga para se comunicar com o além;

2ª se o médium americano tentasse escrever romances psicografados iria ficar infinitamente mais pobre, porque, acho eu, ele precisaria de alguém que conhecesse o defunto-autor o tempo todo ao seu lado chorando para manter a conexão discada sem cair;

3ª as pessoas têm uma vontade tão grande de acreditar que a morte não é o fim que aceitam como verdade qualquer coisa que alguém alegue que veio “do outro lado”; seja apenas a letra inicial de um nome, ou milhões delas no formato de um romance encadernado em capa dura.

Eu resolvi dar a essa série de textos o título de “Deus, Alice e a Matrix” porque, para mim, essa trindade permite explicar “divinamente” bem meu ponto de vista sobre a religião. Mas para você entender por que, preciso, primeiro, explicar algo.

A palavra ‘nonsense’, nos originais em inglês, é sentida como uma assombração nos dois livros sobre as aventuras de Alice. ‘Nonsense’ pode ser traduzido como “bobagem”, “tolice”, “absurdo”, etc., mas seu significado mais profundamente etimológico não tem correspondente em português; então, é preciso parafrasear: ‘nonsense’ é “algo que não faz sentido”. Se eu disser que eu sou o cara mais bonito de todo o país, você pode dizer que isso é uma tolice, uma bobagem, ou uma mentira; mas não é ‘nonsense’. Já se eu disser que para alguém ser considerado bonito tem que ter acesso à Internet, é.

Os livros de Alice são puro ‘nonsense’. Mas isso só pode ser percebido completa e satisfatoriamente em inglês, porque o autor se valeu, obviamente, do seu próprio idioma para escrever a história. Da mesma cena do chá, eu traduzi um diálogo que exemplifica isso: O Arganaz está contando uma estória de três irmãs que moravam no fundo de um poço, e menciona que elas estavam aprendendo a desenhar.

— ‘O que elas desenhavam?’, Alice perguntou.

— ‘Melaço’, disse o Arganaz.

[APÓS
UMA INTERRUPÇÃO PARA QUE MUDASSEM DE ASSENTO PARA OBTEREM LOUÇA LIMPA, ALICE
VOLTA A PERGUNTAR:]

— ‘Mas eu não entendo: de onde elas puxavam o melaço?’

— ‘Você pode puxar água de uma cacimba’, disse o Chapeleiro; ‘assim, eu deveria supor que você pudesse puxar melaço de um poço de melaço, hein, sua tonta?’

E a conversa desandou a partir daqui e tudo porque, devido à interrupção, Alice esquecera que as meninas da estória estavam aprendendo a “desenhar” (‘draw’, em inglês) e não a “puxar” (que é ‘draw’, também). Só que os interlocutores dela não se importaram com a confusão que ela havia feito com os dois significados dessa palavra e a estória acabou tomando um novo rumo, sem nenhuma ligação com o início, só para poder se ajustar ao significado de ‘draw’ que Alice estava, então, considerando.

Não tive ainda, até hoje, a curiosidade de ver como os tradutores resolveram — se é que resolveram — esse e todos os outros problemas envolvendo os trocadilhos em inglês, que enfeitam a história e são a base do ‘nonsense’, mas suponho que as traduções sejam apenas um arremedo mal feito.

Mas, enfim, Alice estava visitando um mundo completamente novo com leis e lógica próprias, mas que faziam sentido para os seus habitantes. O ‘nonsense’ só passou a existir por causa de Alice. Sem ela, o País das Maravilhas seria um lugar normal.

Já a Matrix do filme era um programa de computador que conectava todos os habitantes do mundo a um sonho comum que era o que, para nós, seria a vida real. A Matrix teria funcionado perfeitamente bem, mesmo se algumas pessoas despertassem e fossem desconectadas. O problema só começou — e é esse o mote do filme — quando os que acordaram do sonho aprenderam a se reconectar à Matrix para tentar despertar outros. Eles se tornaram um tipo de Alice, só que com um trunfo na manga: eles sabiam que estavam dentro de um sonho e, em sabendo disso, usavam e abusavam do ‘nonsense’ que só os sonhos permitem.

Aonde eu quero chegar? Aqui: Os religiosos estão vivendo dentro de uma Matrix Intelectual. Eles foram conectados a ela desde a primeira infância pelos seus pais, pela sua família, pela sua sociedade. O Sistema os mantém num sono profundo e os alimenta com os seus ritos, seus catecismos, seus livros sagrados, suas orações, suas missas, seus dogmas e tudo o mais que puder ser usado para mantê-los dormindo. Eles não têm como perceber que estão dentro de um sonho, pois o mundo em que eles vivem faz sentido, como o País das Maravilhas sem Alice faria. Eles não são capazes de perceber o ‘nonsense’ porque o ‘nonsense’ simplesmente não existe na realidade deles. Se todo mundo compartilha a mesma realidade repleta de mágica, então a mágica passa a ser considerada uma coisa normal, possível, ou mesmo esperada.

Então, já que é assim, como eu me atrevo a dizer que eles estão conectados, sonhando dentro de uma Matrix, e não eu juntamente com todos os ateus? Como saber quem está no mundo real e quem está na Matrix? Quem está sonhando e quem está acordado?

Bom… procure pelos personagens do País das Maravilhas na “sua” realidade. Se eles estiverem lá, você estará sonhando. Se você encontrar Lebres Malucas pedindo para você mudar de assunto sempre que você faz determinadas perguntas; ou se as suas perguntas são respondidas de um jeito que não faz o menor sentido, que não explica nada; ou se as estórias que você ouve as pessoas do seu mundo contar mudam de rumo e ninguém liga, tipo: Deus disse para o chefe de um povo que determinado homem tinha que ser apedrejado até à morte porque foi pego apanhando lenha no dia de sábado, e, depois, Jesus (supostamente o mesmo Deus) disse que não era bem assim…; ou se você se sente desconfortável quando alguém diz que vê o mundo de uma forma diferente da sua, a ponto de fazer você sentir necessidade de se afastar dessa pessoa e, adicionalmente, procurar refúgio e conforto nos seus próprios meios de ver o mundo junto com todos os outros que o veem como você, de forma a reforçar a sua própria crença nessa “realidade”… sinto dizer, mas você estará conectado.

Nós, ateus, somos Alices invadindo uma Matrix muito, muito hostil. Saiba que, se você estiver pensando em despertar alguém, pode se ver em sérios apuros porque, como no filme, cada um deles faz parte do Sistema e irá lutar para defendê-lo. Enquanto não estiverem desconectados, todos eles serão seus inimigos. Muitos são Agentes — guardiões da Matrix —, definitivamente conectados a ela e especialmente treinados para combater invasores como você e eu. Não tente enfrentá-los: você não poderá vencê-los.

Mas, se mesmo sabendo disso tudo, você realmente quiser trazer alguém para fora, não entre lá sozinho. Monte uma equipe de resgate, trace um plano, treine antes. E se você vir um Agente, faça o que todos nós fazemos.

Corra.

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