Redefinindo religião

Publicado: 27 de janeiro de 2011 em Vã Filosofia
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Autor: Alex Castro

Fonte: Liberal Libertário Libertino

Editor: Alex Rodrigues

Algumas pessoas dizem que acreditam em Deus, mas não nesse Deus barbudo que falam por aí, e sim em um Deus que é assim uma energia cósmica amorfa, uma força primordial sem-consciência, para a qual não temos uma explicação satisfatória.

Entretanto, em nossa cultura, em nossa tradição ocidental judaico-cristã, “Deus” é um ser consciente, antropomórfico, onipotente e onipresente, que se importa conosco e com nossa vida, que criou uma série de regras pelas quais devemos viver e que vai nos julgar de acordo com essas regras quando morrermos.

Se você acredita em uma energia cósmica amorfa, em uma força primordial sem-consciência, para a qual não temos uma explicação satisfatória, etc etc, bem, isso não é Deus, isso é (entre outras coisas) a gravidade. Eu também acredito nisso. Qualquer ateu, qualquer astrônomo, acredita nisso.

Uma dica: Deus é uma presença metafísica. Se você descreve Deus usando vocabulário científico (energia, força, cavalos de potência, etc), então pare com esse medo bobo de se reconhecer ateu, e junte-se ao clube.

Algumas pessoas dizem que acreditam em vida após a morte, mas não nessa coisa boba de vidas passadas e karma, e sim que nascimento, maturidade, decadência, desintegração e renascimento são leis da própria natureza, que nossa força vital sobrevive à nossa morte, que toda vida é vida após a morte, que nossa energia é imortal e não pode ser destruída.

Mais uma vez, pare com esse medinho de se admitir ateu e seja bem-vindo ao clube. Eu também acredito nisso. Qualquer cientista acredita nisso. Sua crença não é espiritual ou metafísica, ela se chama Lei da Conservação da Massa ou da Energia e foi postulada no século XVII.

Eu adoro o Jesus-personagem-da-Bíblia mas existem sérias dúvidas sobre a existência do Jesus-histórico. Na verdade, havia um excesso de Jesus: era dos nomes masculinos mais populares. Ou seja, havia diversos homens chamados Jesus, alguns deles pregadores, mas nenhum que se adequasse exatamente ao Jesus-personagem apresentado nos Evangelhos.

Então, qualquer discussão sobre a historicidade de Jesus acaba mais ou menos assim: ora bolas, é CLARO que Jesus existiu! Ele só não era de Belém, mas de Canas; sua mãe era Ana, não Maria; ele era oleiro e não carpinteiro; e ele morreu aos 36, não aos 33. Mas é claro que existiu!

O que equivale a, em um futuro longínquo, alguém dizer que é claro que Alex Castro existiu: ele só era magro, não gordo; uruguaio, não brasileiro; jogador de vôlei, não escritor; morou em Pequim, nunca em Nova Orleans.

Mas é claro que era ele!

Como propôs uma vez o Idelber, ateus, saiam do armário. Levando a metáfora adiante, assim como existem muitos gays que estão no armário sem nem saber, que fazem um esforço psíquico enorme para manterem a ilusão de serem heteros quando na verdade são homos, também existe um número assustador de ateus que não sabem que são ateus – porque ser ateu, assim como ser homossexual, é feio e impopular, pega mal e dá trabalho.

Quanto medo das palavras! Se você acredita em Deus, mas em um Deus que não tem nada a ver com a definição corrente de Deus, então você não acredita em Deus – você acredita em outra coisa que, talvez por motivos de pressão social, você não quer nomear. Idem para reencarnação, idem para Jesus, idem para mil outras coisas.

Ninguém tem que ser ateu. Ninguém é obrigado a sair do armário. Mas o que eu quero dizer aqui é: se você se enquadra nos exemplos acima, você JÁ é ateu. Só falta admitir.

Não sejam como o vegetariano que come bife – mas chama o bife de cenoura.

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Leia também do mesmo autor: Definindo irreligião.

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