Dos preconceitos que todos temos (e não há nenhum problema nisso )

Publicado: 15 de abril de 2011 em Opinião
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Fonte: Uma Visão do Mundo

Autor: Eduardo Patriota Gusmão Soares

A polícia é temida mais por negros do que por brancos. Adivinhe o por quê.

Quem já assistiu Tiros em Columbine, de Michael Moore, deve se lembrar do trecho em que ele mostra o quanto os negros são discriminados nos EUA. Não é à toa. As sucessivas cenas com trechos de diversos telejornais com negros sendo presos, assaltando e traficando, dão uma pista do porquê deles terem este tratamento. Se sempre que você vê um bandido na televisão ele é negro, você associará uma coisa com a outra.

Aqui não é lá muito diferente. Tanto que mais de 60% da população carcerária é composta de negros. Logo, minha reação instintiva ao ver um negro mal vestido é segurar minha mochila com mais força e torcer para que ele não faça parte daquela parcela de negros que vemos toda hora nos noticiários policiais. Não preciso dizer que faço isso inconscientemente. É uma reação quase que instintiva de um cérebro evoluído para reconhecer potenciais ameaças. E quanto não fico irritado ao chegar algum moralista (que parece livre de preconceitos e estereótipos) apontando o dedo na minha cara gritando: “Isso é ser preconceituoso!”.

Isso me lembra de um vídeo engraçado que encontrei na internet. Um sujeito decide passear com uma meia-calça na cabeça. Daquelas que assaltantes de bancos costumam usar em filmes. O engraçado é ele entrando com dinheiro, serenamente, perguntando o preço de alguns produtos ou coisa do tipo e vemos as pessoas fugindo desesperadamente. Num determinado momento, mesmo ele dizendo que só quer comprar uma coisa, um lojista não acredita e chama a polícia.

Em outra situação hipotética, se ele usasse o mesmo adereço numa aldeia sem acesso à televisão seria tratado normalmente. Será que isso é por que os aldeões são menos preconceituosos do que os moradores de uma cidade grande? Claro que não. Contudo, não há nenhum tipo de condicionamento que lhes permita formular um conceito prévio sobre se alguém usando meia-calça na cabeça é uma pessoa boa ou ruim. Ceder a um instinto seguindo nosso conhecimento sobre a periculosidade de um estereótipo de uma pessoa ou de uma situação é, portanto, um tipo de preconceito que fazemos naturalmente e sobre o qual não temos controle. Mas será que há algum tipo de preconceito moralmente condenável e sobre o qual verdadeiramente deveríamos nos focar em mitigar?

Quando o preconceito torna-se justificativa para realizar deliberadamente um ato que trará algo prejudicial a outrem de forma injusta, aí temos um problema. Se aquele negro maltrapilho entrou no ônibus, pagou sua passagem, se sentou em seu banco e alguém tentar tirá-lo dali, partindo do pressuposto que o homem seja um cidadão de bem, estamos a cometer uma injustiça. Ainda que uma pessoa se sinta ameaçada, ela não tem o direito de tomar uma ação baseada apenas no conceito que ela tem sobre negros com roupas esfarrapadas.

Por que aumentar mais o salário do branco, se o negro também é capaz? Por que negar direitos a casais homossexuais que levam a vida exatamente como qualquer outro casal heterossexual? Nestes casos, estamos sucumbindo às nossas preferências e conceitos em detrimento da racionalidade e da justiça. Claro, isso ainda permite que uma pessoa goste ou não de homossexuais, negros, asiáticos, obesos, muçulmanos, etc. Mas na hora de tomar uma atitude em relação ao próximo, devemos tentar agir com isenção. Se atuarmos baseando-se apenas no que presumimos ser a personalidade e capacidade do outro, estaremos nos comportando de forma tão ridícula quanto as pessoas no vídeo fugindo de um consumidor americano comum que decidiu usar meia-calça na cabeça como adorno.

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