VOZES DE UMA SAGA – Luiz Felipe Reis – The Rolling Stones

Publicado: 16 de maio de 2011 em Geral

Dois pontos de vista — o do artista e o do fã — são usados em livros que contam a história dos Rolling Stones

Luiz Felipe Reis

artista e o fã. Duas perspectivas distintas, que agora se unem em dois lançamentos que iluminam a saga de múltiplas vias e versões da maior e bem-sucedida banda de rock do planeta, os Rolling Stones. Se em “According to The Rolling Stones” (Cosac Naify), os depoimentos de Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ron Wood constróem um mosaico de impressões em primeira pessoa, em “Under their thumb” (Nova Fronteira), são as lembranças de um fanático pela banda que conduzem o leitor. Os dois títulos fogem à ideia de biografia convencional, construída a partir de inúmeras fontes, ou das centradas em seus dois líderes, como as recém-lançadas “Mick Jagger e os Rolling Stones” (Larousse) e a polêmica “Vida” (Globo), que revela as enfumaçadas lembranças de Keith Richards. Unindo pontos de vistas dos atores da cena e de um observador privilegiado, agora os “rolling stoners” brasileiros têm em mãos poderosas e inéditas histórias sobre a banda.

— O livro revela como os Stones são capazes de recordar todas essas décadas de história em comum e sua aceitação de que, juntos, eles são um potente e volátil coquetel de personalidades e talentos — diz Philip Dodd, que ao lado de Dora Loewenstein organizou “According to The Rolling Stones”.

Dividido em 12 capítulos, o livro tem como trunfo não apenas as vozes em primeira pessoa, como a obsessão pelo blues, passando pela criação dos hits e álbuns, além das já debatidas polêmicas sobre as pressões do estrelato, o mergulho nas drogas e os excessos de todos os tipos. O que sobressai é a sensação de intimidade que as entrevistas capturadas durante a turnê “Forty licks”, iniciada em setembro de 2002, causam — à época, os Stones completavam 40 anos de carreira. Lançado na Inglaterra em 2003, o livro ganha versão brasileira com discografia atualizada.

— A beleza do livro é que ele faz você sentir que está numa sala, sentado ao lado dos Stones, ouvindo-os conversar — conta Dodd. — Você entende melhor as características individuais e os elementos que cada um traz para criar esse fenômeno, essa evolução orgânica, resistente e muito humana.

Em meio à enxurrada de fotos e depoimentos que recheiam as 335 páginas do livro, acionam a imaginação do leitor alguns relatos à flor da pele. Um deles traduz de forma cristalina a complexa relação de amor e ódio, magnetismo e repulsa que rege o campo de energia entre as duas forças motrizes da banda, Mick e Keith: “Eu amo Mick. Ele é meu companheiro e vou protegê-lo até o fim. Mas às vezes você pensa: ‘Onde está areciprocidade?’ Talvez eu tenha fodido com ela nesses dez anos quando me afundei nas drogas… E aí não há reciprocidade”, diz Keith. Apesar dos altos e baixos, a camaradagem também emerge. “Há uma certa química entre Mick, eu, Charlie e Ronnie, que simplesmente funciona. Se eu pudesse engarrafar, eu estaria vendendo isso”, diz o guitarrista. Fora as palavras de Keith e Mick, a perspectiva silenciosa de quem esteve sentadoatrás da bateria e de frente para a ação revela insights preciosos. As lembranças do baterista Charlie Watts sobre o cuidado obsessivo de Brian Jones aprumando sua impecável franja ou praticando nervosamente passos de dança (“Brian era inseguro e, muito pela sua paranoia, envergonhado”, diz), assim como a pouco conhecida relação do baterista com as drogas, nos anos 80 (“Eu estava muito mal, usando drogas e bebendo muito. Não sei o que me fez embarcar nessa tão tarde. Bem, para Keith não era tarde o bastante”), e as brigas com socos desferidos em Jagger (“Não é algo de que eu tenha orgulho…”) criam alguns dos momentos mais potentes do livro.

— Sabemos de quase todos os excessos dos Stones. Bill Wyman os catalogou extensamente em sua biografia. Então, Charlie falando de seus dias negros é de alguma forma um dos aspectos mais chocantes, porque parece deslocado de sua personalidade — diz Dodd.

A Nova York do começo dos anos 1980 era a casa de Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e… Bill German. German? Não seria Wyman, o baixista dos Stones? Não. Bill German tinha 17 anos quando bateu de frente com o trio. E justamente por ser um moleque que sabia de drogas e sexo através de letras de rock, mas um profundo conhecedor das diabólicas histórias dos Stones, ele foi aceito no grupo. Se os Stones são a maior banda de rock, Bill é o fã número 1. E é a partir dessa perspectiva única, de quem viveu quase 20 anos na sola da banda, escrevendo alucinadamente informações quentíssimas no fanzine “Beggars Banquet”, e desfrutando de momentos íntimos, do backstage à sala de estar, que ele criou “Under their thumb”, trabalho que ilumina detalhes inusitados, pouco conhecidos ou mesmo inéditos.

— Acho que eles me receberam bem porque eu era só um moleque de 17 anos que não queria nada deles, e conhecia muito o trabalho — lembraGerman. — Fora que, quando eu os conheci, eles estavam morando em Nova York, sempre circulando pela cidade.

As histórias relembradas, comentadas e narradas por German extraem fatos que se passaram do fim dos anos 1970 até meados dos anos 1990. Com isso, muitos episódios marcantes ficam de fora, como a prisão de Mick e Keith por porte de drogas em 1967, a saída da banda, a imersão nas drogas e a morte de Brian Jones e o polêmico show de Altamont, onde os furiosos Hell’s Angels promoveram uma onda de pânico e um banho de sangue. O que se lê em “Under their thumb” é uma privilegiada e afetiva perspectiva: as lembranças de um fã, que além de colecionar vinis, CDs, livros, reportagens e fotos, guarda como a mais preciosa memorabilia a própria memória.

— Em quase todas as páginas há histórias que nem os maiores fãs conhecem — garante German. — Situações que testemunhei pessoalmente. Casos, brigas, disputas, negócios, e quem os Stones são como pessoas, não apenas como rockstars… Bastidores de shows importantes, como oLive Aid, Keith ameaçando matar Mick, Ronnie dormindo com Chrissie Hynde, Keith e Ronnie destruindo seus troféus do Rock & Roll of Fame…

Coisas de fã, como “o show mais emocionante da vida”, ganham capítulos inteiros, numa narrativa que detalha os Stones tocando num pequeno clube londrino, em 1986, num show em homenagem ao pianista Ian Stewart, morto um ano antes.

— Eles convidaram apenas 200 pessoas e não tocaram nenhuma canção dos Stones, apenas antigos blues, canções que amavam, com participações de Eric Clapton, Jeff Beck e Pete Townshend. Foi uma noite especial.

E madrugadas de dar inveja mortal colocam um ponto final na odisseia:

— Ia para a casa do Ronnie, e às duas da manhã a campainha tocava e era o Keith… Os dois começavam a tocar no porão ou na cozinha até amanhecer. Apenas eu, numa sala com os dois tocando canções dos Beatles e de Buddy Holly… São minhas lembranças mais valiosas.

O Globo, 14 de Maio de 2011

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s