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Rodrigo Constantino: Aos carolas, Nietzsche!

Friday, April 13, 2012

Aos carolas, Nietzsche!

Rodrigo Constantino

A reação (medieval) de alguns religiosos mais fanáticos à decisão do STF sobre aborto em fetos anencéfalos me remeteu diretamente ao filósofo Nietzsche. Cheguei a sofrer ataques coordenados no Facebook por gente (desequilibrada) que me acusou de defensor da eugenia ou me comparou a Hitler. Já escrevi sobre este último ponto, colocando os pingos nos is. Agora vou resgatar Nietzsche para tentar explicar tanto “amor” por fetos condenados a jamais viver como seres humanos em sua plenitude (falta aquele “pequeno detalhe”, chamado atividade cerebral, razão!).

Alguns carolas chegaram a quase enaltecer o feto anencáfalo que, em raríssimos casos, consegue ter sobrevida por alguns meses ou anos após o parto. Sem atividade cerebral, sem consciência, a massa corpórea vegetativa é vista, por alguns, como algo maravilhoso, lindo. Por isso falo da “ética do sofrimento”. Esta gente acha bonito sofrer. Quanto mais sofrimento, mais “nobre” é a vida, segundo esta ótica patológica. Vamos às palavras de Nietzsche:

O cristianismo é conhecido como a religião da piedade. A piedade, porém, é deprimente, pois enfraquece as paixões revigorantes que aumentam a sensação de viver. Do ponto de vista religioso e moral, a piedade toma um aspecto muito menos inocente quando se descobre de que natureza é a tendência que ali se esconde sob palavras sublimes: a tendência hostil à vida.

Não concordo totalmente com o pensador, e consigo enxergar o lado positivo da tal piedade cristã. Mas que transparece em cada ataque virulento dos carolas esta hostilidade à vida, ao menos à vida humana com sua potência plena, isso é fato. O que nos leva ao próximo ponto:

O cristianismo deve a sua vitória a essa lastimável bajulação da vaidade pessoal – por esse meio atraiu tudo quanto estava falido, instintos sediciosos, mal equilibrados, aqueles sucumbidos pelo mal e a escória da humanidade. Do ressentimento das multidões forjou a sua arma principal contra nós, contra tudo o que há de nobre, de alegre, de magnânimo sobre a Terra, contra a nossa felicidade sobre a Terra… O cristianismo é uma insurreição de tudo o que rasteja contra tudo quanto está elevado.

Aqui não tenho como discordar de Nietszche! Vejo esta vaidade estampada em cada rosto daqueles que se julgam acima dos demais, que embarcam nesta cruzada moral para se sentirem melhores que os outros, monopolizando as “virtudes”. É um estratagema de inversão dos fatos incrível. O ressentido, o medíocre, o invejoso, cada um abraça esta “causa nobre” e posa como o maravilhoso defensor dos “fracos e oprimidos” (um feto anencéfalo?), para então poder olhar de cima os demais. São almas incríveis, como Madre Teresa de Calcutá, que amava mais a pobreza do que os pobres! Chafurdam na lama pois assim se sentem virtuosos. Mas Nietzsche detectou a hipocrisia do teatro:

Fazendo-se humildes, como velhacos hipócritas nos seus cantos, vegetando na sombra como fantasmas, cumprem um dever: a sua vida de humildade aparece como um dever porque é humilde, é uma prova mais de devoção. Ah! essa humilde, pudica e misericordiosa hipocrisia!

Eis que, regado à hipocrisia e atendendo a uma demanda humana, demasiado humana, de inverter o quadro e se colocar acima dos outros quando se está, na verdade, no limbo, os carolas passaram a enaltecer o sofrimento, a miséria, a doença. Quanto mais doente (um feto anencáfalo?), melhor, pois mais nobre. A grávida que atravessar o calvário de 9 meses carregando no útero um feto que jamais gozará de uma vida humana em sua plenitude, eis o que eles consideram fantástico, maravilhoso, lindo e nobre. Mais Nietzsche:

O cristianismo dirigiu o rancor dos doentes contra os saudáveis, contra a saúde. Tudo o que é bem-formado, orgulhoso, soberbo, a beleza, antes de tudo, incomoda-lhe os ouvidos e os olhos. Recordo outra vez as inapreciáveis palavras de Paulo: “Deus escolheu o que há de fraco no mundo, o que é louco perante o mundo, o que é ignóbil e desprezível”. Tudo o que sofre, tudo o que está suspenso na cruz é divino. O cristianismo foi até ao presente a maior desgraça da humanidade.

Não chego a tanto. Como já disse, consigo ver o lado bom do cristianismo. Mas nem por isso vou deixar de apontar o lado ruim. Ele existe, e com esta reação ao julgamento do STF, ficou exposta a olhos nu, com toda a sua feiura sem o manto hipócrita do altruísmo.

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Aegisub: If programming languages were religions….

(Inspired by “If programming languages were cars“)

C would be Judaism – it’s old and restrictive, but most of the world is familiar with its laws and respects them. The catch is, you can’t convert into it – you’re either into it from the start, or you will think that it’s insanity. Also, when things go wrong, many people are willing to blame the problems of the world on it.

Java would be Fundamentalist Christianity – it’s theoretically based on C, but it voids so many of the old laws that it doesn’t feel like the original at all. Instead, it adds its own set of rigid rules, which its followers believe to be far superior to the original. Not only are they certain that it’s the best language in the world, but they’re willing to burn those who disagree at the stake.

PHP would be Cafeteria Christianity – Fights with Java for the web market. It draws a few concepts from C and Java, but only those that it really likes. Maybe it’s not as coherent as other languages, but at least it leaves you with much more freedom and ostensibly keeps the core idea of the whole thing. Also, the whole concept of “goto hell” was abandoned.

C++ would be Islam – It takes C and not only keeps all its laws, but adds a very complex new set of laws on top of it. It’s so versatile that it can be used to be the foundation of anything, from great atrocities to beautiful works of art. Its followers are convinced that it is the ultimate universal language, and may be angered by those who disagree. Also, if you insult it or its founder, you’ll probably be threatened with death by more radical followers.

C# would be Mormonism – At first glance, it’s the same as Java, but at a closer look you realize that it’s controlled by a single corporation (which many Java followers believe to be evil), and that many theological concepts are quite different. You suspect that it’d probably be nice, if only all the followers of Java wouldn’t discriminate so much against you for following it.

Lisp would be Zen Buddhism – There is no syntax, there is no centralization of dogma, there are no deities to worship. The entire universe is there at your reach – if only you are enlightened enough to grasp it. Some say that it’s not a language at all; others say that it’s the only language that makes sense.

Haskell would be Taoism – It is so different from other languages that many people don’t understand how can anyone use it to produce anything useful. Its followers believe that it’s the true path to wisdom, but that wisdom is beyond the grasp of most mortals.

Erlang would be Hinduism – It’s another strange language that doesn’t look like it could be used for anything, but unlike most other modern languages, it’s built around the concept of multiple simultaneous deities.

Perl would be Voodoo – An incomprehensible series of arcane incantations that involve the blood of goats and permanently corrupt your soul. Often used when your boss requires you to do an urgent task at 21:00 on friday night.

Lua would be Wicca – A pantheistic language that can easily be adapted for different cultures and locations. Its code is very liberal, and allows for the use of techniques that might be described as magical by those used to more traditional languages. It has a strong connection to the moon.

Ruby would be Neo-Paganism – A mixture of different languages and ideas that was beaten together into something that might be identified as a language. Its adherents are growing fast, and although most people look at them suspiciously, they are mostly well-meaning people with no intention of harming anyone.

Python would be Humanism: It’s simple, unrestrictive, and all you need to follow it is common sense. Many of the followers claim to feel relieved from all the burden imposed by other languages, and that they have rediscovered the joy of programming. There are some who say that it is a form of pseudo-code.

COBOL would be Ancient Paganism – There was once a time when it ruled over a vast region and was important, but nowadays it’s almost dead, for the good of us all. Although many were scarred by the rituals demanded by its deities, there are some who insist on keeping it alive even today.

APL would be Scientology – There are many people who claim to follow it, but you’ve always suspected that it’s a huge and elaborate prank that got out of control.

LOLCODE would be Pastafarianism – An esoteric, Internet-born belief that nobody really takes seriously, despite all the efforts to develop and spread it.

Visual Basic would be Satanism – Except that you don’t REALLY need to sell your soul to be a Satanist…

Thanks to jfs and other people on #aegisub for the suggestions. Keep in mind, this list is a joke, and is not meant to offend anyone. Also, if you’re a Muslim, please don’t kill me. 😉

Ateus se oferecem para cuidar de animais de estimação dos cristãos após Juízo Final
(AFP) – Há 5 horas

WASHINGTON — O destino de cães e gatos de estimação após o dia do Juízo Final, que alguns cristãos fundamentalistas garantem que será este sábado, tem sido motivo de preocupação para muitas famílias, mas um grupo de empresários ateus dos Estados Unidos oferece a solução.

Em 26 dos 50 estados americanos, os empreendedores abriram um negócio que oferece serviços de resgate e adoção dos animais dos cristãos que forem selecionados para subir aos céus, quando Jesus os chamar ao seu lado.

“Você prometeu a vida a Jesus. Agora, está salvo. Mas quando chegar o êxtase, o que acontecerá com seus amados bichos de estimação que deixará para trás?”, questiona o site da internet da companhia Eternal Earth-Bound Pets, que oferece aos cristãos “tirar-lhes esta preocupação da cabeça”.

O serviço de resgate de bichos de estimação já tem 259 clientes, que pagaram 135 dólares para o primeiro animal e US$ 20 adicionais pelo segundo no mesmo endereço. A empresa garante que o animal terá companhia, cuidados e amor, apesar de seus donos cristãos terem ido para o céu.

Todos os integrantes das equipes de resgate são ateus convictos, o que significa que ficarão definitivamente na Terra, dedicados a recolher os animais depois deste dia.

Quando vier o dia do Juízo Final, o co-fundador da empresa Bart Centre “notificará todos os socorristas para que entrem em ação”.

“Isto ocorrerá só se acontecer. Ou seja, não temos previsto fazer nada se não acontecer nada no sábado”, explicou uma fonte da Bart Centre à AFP.

Os contratos são válidos por 10 anos.

Copyright © 2011 AFP. Todos os direitos reservados. Fonte: http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5j-EDpa8WJPlVcutHRnuTiUHgXgkQ?docId=CNG.1cb37be81ebcf6978b9425c82dd3d7cc.9f1

ELIANE BRUM

Há um vídeo circulando na internet que tem provocado ataques de riso. É bem engraçado mesmo. Mas não é apenas isso. Ele nos dá a possibilidade de pensar algo importante: por que as novas – novíssimas – igrejas evangélicas arrebanham tantos fiéis e fazem seus criadores, sempre um bispo fulano ou apóstolo sicrano, enriquecer com uma rapidez de deixar qualquer capitalista orgulhoso. E em seguida expandir sua igreja para outros países/mercados – ou muito pobres ou povoados por imigrantes de países pobres. Ao mesmo tempo em que passam, como qualquer empreendedor competente, a diversificar seus negócios para outras áreas de atuação. O fenômeno é bem conhecido, mas este vídeo de três minutos pode nos ajudar a alargar a questão para outros pontos de vista.

O vídeo no YouTube se chama “O Milagre da Privada”:

E, ao terminar de assisti-lo, podemos pensar, com algum senso de humor, que o conceito de onipresença divina acabou de ser ampliado. Nele, uma senhora muito carismática conta ao pastor que Deus fez um milagre com ela. Pelo que entendi, ela usou um travesseiro vendido na igreja através do qual o poder divino se manifesta. No caso dela, colocou o travesseiro na barriga, sobre a região do intestino, e pela primeira vez na vida, segundo seu relato, conseguiu o que lhe parecia impossível.

E aí os leitores mais pudicos que me perdoem – assim como a Época, que com toda razão exige um texto elegante –, mas neste caso é essencial respeitar a linguagem usada, porque ela contém informação. A senhora conta que finalmente, depois de décadas de sofrimento, de passar “de 15 a 20 dias” sentando-se na privada inutilmente, graças à interferência divina obtida através do travesseiro e da igreja, conseguiu dar “uma bela de uma cagada”.

Apesar de termos pudores com esta parte do cotidiano do corpo, a única que nem toda a riqueza do mundo consegue fazer cheirar bem, a compreensão do relato é imediata. E a mulher dá seu testemunho com uma alegria e uma sinceridade que me parece que rimos com ela, por identificação humana – e não dela. O que faz uma grande diferença.

A senhora parece realmente feliz por Deus ter lhe soltado os intestinos depois de uma vida inteira de prisão. Para ela era um grande drama – e todos nós sabemos que pode mesmo ser. “Meu Deus, por que todo mundo caga menos eu?”, relata ela. “Misericórdia, meu Deus!” Era este, afinal, o milagre que esperava de sua fé.

Ela deve ter muitas outras mazelas na vida, mas a maior de todas era esta. E supostamente seus problemas na área acabaram. Porque este ato tão simples para a maioria da humanidade lhe era negado, ela usa a palavra “cagar” várias vezes. Goza com a palavra que nomeia a função a qual finalmente tem acesso. E é por isso que eu a repito aqui. Porque usar “defecar” seria uma traição à sua narrativa.

O vídeo parece genuíno, mas não tenho como comprovar sua veracidade. Se ela é uma atriz, merece um Oscar. Se for uma peça de humor, é ótima. De qualquer modo, “milagres” comezinhos acontecem aos milhares todo dia nessas novas igrejas evangélicas, determinantes para a transformação do Brasil num país cada vez mais multirreligioso. Basta ligar a TV ou acessar os respectivos sites para testemunhar que, se existe um Deus, ele anda ocupadíssimo resolvendo questões as mais prosaicas. Escolho este “milagre”, e não outro qualquer, apenas porque ao alcançar o território da privada ele explicita ainda mais o fenômeno na esfera pública.

A imprensa tem denunciado a exploração dos fiéis e o enriquecimento ilícito de algumas dessas igrejas – e, principalmente, a locupletação de seus fundadores. Como na ótima reportagem “Milagres e Milhões

”, de Ricardo Mendonça e Mariana Sanches, publicada na Época em 2010. Os exemplos são muitos e contundentes. Mas há algo, de outra ordem, que é importante compreender nesse fenômeno. E que a senhora de “O milagre da privada” nos conta muito bem.

O problema que encontro na crítica generalizada que se faz a essas novas igrejas evangélicas, da mesa de bar às discussões mais formais, é o menosprezo da capacidade de discernimento do povo. Supostamente os fiéis que lotam os templos seriam apenas vítimas de estelionatários da fé. Dando um dinheiro que lhes falta para quase tudo em troca de fumaça. Me parece que esta é uma verdade em alguns casos – mas apenas parte dela. É preciso complicar mais a questão.

Primeiro porque a fé, por definição, não pertence à esfera das comprovações científicas. Se fosse este o critério, haveria de se proibir todas as igrejas, inclusive a Católica. Fé é crença, não ciência. Você acredita se quiser ou puder. Alguns têm fé, outros não. A Constituição brasileira acolhe a todos ao admitir a liberdade religiosa. Mesmo que – ainda bem – o Estado seja laico. Isso significa que, se a senhora do vídeo quiser acreditar que o travesseiro ungido libertou seu intestino, é um direito dela. Da mesma forma que outros acreditam que João Paulo II é santo. E outros não acreditam em nada.

O problema maior, em meu ponto de vista, é achar que o povo que escolhe essas novas igrejas e acredita em milagres como esse é apenas uma vítima passiva. Este raciocínio reduz as pessoas e a compreensão do fenômeno. Ninguém dá nada – muito menos o seu dinheiro – se não recebe algo em troca. Quando esta troca se desequilibra e as pessoas se sentem enganadas, como em qualquer negócio, elas ou mudam de igreja ou vão à Justiça – se conseguirem acesso.

O povo brasileiro é bastante pragmático. E me parece que as pessoas entendem claramente que é um negócio, ainda que seja um negócio embrulhado em fé – e por isso a maior parte dos casos na Justiça é dessas igrejas e não das tradicionais. Não me parece que a busca maior nesse caso seja pela transcendência: o que se quer é uma solução prática e imediata, como é o espírito do nosso tempo apressado. Se dessacraliza o sagrado para sacralizar literalmente a mercadoria.

Pensar que os fiéis não sabem o que fazem pode ser arrogância – e até preconceito. Assim como ficar repetindo que o povo não sabe votar quando o resultado do processo democrático é diferente do esperado por determinada pessoa ou grupo político.

E o que essas igrejas oferecem que faz valer a pena dar um dinheiro que fará falta? Algo que possivelmente as pessoas que as procuram não encontram em nenhum outro lugar: acolhimento e escuta. É por isso que pagam. Há uma enorme carência de escuta em nosso tempo. Nunca se falou tanto – e talvez nunca tenha se escutado tão pouco. É este o vácuo que tem sido ocupado pela religião de mercado.

Que outro lugar, neste país, hoje, está de portas abertas e com alguém a postos para escutar o que o outro tem a dizer, ainda que possa ser apenas para avaliar o quanto de dinheiro poderá arrancar de quem desabafa? Se você está doente ou seu marido é alcoólatra, você vai encontrar alguém que o escute no SUS? Se seu filho está mal nos estudos ou agressivo em sala de aula e em casa, ou envolvido com traficantes, você vai encontrar alguém que o acolha na escola ou em outra instituição? Se você está sem emprego ou sua casa foi levada pela enchente porque a prefeitura e o estado deixaram de fazer as obras necessárias, onde você vai encontrar um teto e um banco para sentar e um ombro para chorar, ainda que tenha de dar o último trocado que restou no seu bolso? Em que outro lugar você se sentirá parte, ainda que no meio de uma multidão, mas uma com a qual você se identifica e o reconhece como um igual?

Por mais fraudulento que possa parecer – e em muitos casos é –, há algo que funciona nesses espaços. Há uma mercadoria que é entregue – ou os templos estariam vazios. E é entregue em geral não por um pastor ou bispo ou apóstolo ou irmão fulano qualquer, mas um fulano com um nome, sobrenome e rosto parecido com o do fiel. Este acolhimento e esta escuta fazem diferença na vida dessas pessoas ou elas não estariam lá. Deveria ser diferente? Acredito que sim. E lamento que não seja.

Mas as pessoas, todas e especialmente as mais pobres e desamparadas, têm de se virar com a realidade que está aí. Hoje, agora. E estas são as portas que estão abertas – quando quase todo o resto parece falhar. Ou está fechado. Ou não tem vaga.

Onde mais a senhora do vídeo poderia contar no microfone, ser ouvida e ser abraçada por aquele que está no lugar da autoridade porque deu “uma bela cagada” pela primeira vez na vida?

Pois é.

(Eliane Brum escreve às segundas-feiras.)

Fonte:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI231711-15230,00-O+MILAGRE+DA+PRIVADA.html

Uma temporada de facões [livro]

Publicado: 5 de maio de 2011 em história, Religião
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Não lembro da intervenção norte-americana nesse caso específico:

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Durante a primavera de 1994, 800 mil tútsis foram mortos a golpes de facão, em Ruanda. Numa rotina que durou quase cem dias, das 9h30 à 16h, os hutus saíam de casa cantando e vasculhavam os pântanos em busca dos próprios vizinhos. Decepavam até o final do expediente. A noite, bebiam cerveja, trocavam mexericos, contavam piadas e afiavam as ferramentas nas pedras-pomes. “Matar era menos cansativo do que plantar”, dizem. “Bastava vasculhar para colher”… Dez anos depois, o jornalista Jean Hatzfeld instalou-se em Ruanda para entender o genocídio. Em Dans le nu de la vie (2000), registrou o testemunho das vítimas sobreviventes; agora, em Uma temporada de facões, ouve os matadores. Como diz Susan Sontag na apresentação do livro, “Esforçar-se para entender o que aconteceu em Ruanda é uma tarefa dolorosa da qual não temos o direito de nos esquivar – faz parte de ser um adulto moral”. Com enorme franqueza e muitas vezes até com candura, dez dos assassinos falam sobre a organização e execução da matança, a banalidade, o ódio, o arrependimento e o perdão. Discursam sobre o horror e o indizível. Nas conversas, uma angustiante constatação: são pessoas comuns, sem traços de ferocidade. Pais de família, jogadores de futebol, professores e lavradores que deceparam amigos íntimos sem constrangimento e, no final, fariam tudo novamente. [texto de Luiz Claudio Lins, via Facebook]

Editora: Companhia das Letras
Autor: JEAN HATZFELD
Ano: 2005
Número de páginas: 288

Mais um problema na sociedade moderna!

Editora: Rayssa Gon

Fonte: Paulopes Weblog

Sacerdotes católicos e especialistas em exorcismo reunidos em um curso para exorcistas em Roma alertaram que o acesso à internet e a novas tecnologias facilita o contato com seitas satânicas e a difusão do culto ao demônio.

Uma preocupação dos organizadores do curso, organizado pela Universidade Regina Apostolorum, é o risco de que os jovens, muitos dos quais utilizam a internet regularmente, estejam mais vulneráveis ao satanismo.

“O sacerdote com uma boa preparação pode ajudar muito a enfrentar o problema do fascínio exercido pelo satanismo sobretudo em jovens frágeis ou que vivem em situação de dificuldade”, disse o porta-voz da Universidade Regina Apostolorum, Carlo Climati, ao apresentar o curso.

O padre Cesare Truqui, um dos organizadores, disse que, “além de padres, há psicólogos, médicos, advogados e outros especialistas que ajudam os sacerdotes no discernimento dos casos, para entender se o que se passa com a pessoa sai da normalidade”.

Um dos professores do curso, o padre exorcista Gabriele Nanni, disse que as pessoas ficam expostas ao buscar na web informações sobre práticas satânicas e ocultismo.

“Graças à internet há grande difusão de esoterismo e satanismo, e é justamente por meio destas práticas que muitas pessoas sofrem ataques do demônio, ainda que não a ponto de serem totalmente possuídas”, disse o religioso, segundo a agência de noticias Ansa.

Nanni informou que, nos últimos anos, aumentou o número de padres exorcistas. ”No mundo eclesiástico, há um aumento da atividade dos exorcistas, com um interesse maior sobretudo por parte dos sacerdotes mais jovens”, afirmou Nanni.

Giuseppe Ferrari, diretor da Gris, instituto reconhecido pela Conferência Episcopal italiana, confirmou a percepção da difusão do satanismo via internet.

“Dados científicos confirmam esta tendência. Recebemos muitas denúncias e pedidos de ajuda de pessoas que se envolvem com seitas satânicas e outros tipos de seitas”, disse.

“A internet é um veículo de informação onde se encontra de tudo. Num site de rock tipo ‘heavy metal’, por exemplo, abrem-se links para sites, e as vias de acesso são infinitas.”

Religião na Escola

Publicado: 15 de março de 2011 em Educação, Religião
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WP Religion

Image via Wikipedia

A cena, que teve lugar numa escola pública de Samambaia, cidade-satélite de Brasília, abre a reportagem de Angela Pinho sobre o ensino religioso no Brasil, publicada no último domingo na Folha. É um retrato perfeito da encrenca em que essa disciplina, que vem crescendo e hoje abarca mais ou menos a metade das escolas do país, nos lança.

Se as historietas bíblicas são reais, como quer a professora, então nós temos vários problemas. Procedamos por ramos do saber, a começar da física. De acordo, com Josué 10:12, Deus parou o Sol para que os israelitas pudessem massacrar os amorreus. Mesmo que eu não duvidasse da onipotência do Senhor, pelo que sabemos hoje de mecânica, nada na Terra sobreviveria a uma súbita interrupção de seu movimento de rotação. Em quem o aluno deve acreditar, no professor de religião ou no de ciência?

A física não o comoveu? Que tal a geologia? Pela Bíblia, a Terra tem cerca de 6.000 anos –5.771, a confiar nas contas dos rabinos. Pela geologia, são 4,5 bilhões. É difícil, para não dizer impossível, conciliar a literalidade das Escrituras com a existência de fósseis com idades substancialmente maiores que os seis milênios. Do lado de qual professor o aluno deve perfilar-se?

Talvez o problema esteja nas ciências “duras”. Passemos às humanidades. A Bíblia, como todo mundo sabe ou deveria saber, é a fonte da moral, e os ensinamentos que ela traz nessa área são incontestáveis. Será? Em várias passagens, o “bom livro” autoriza ou mesmo manda fazer coisas que hoje consideraríamos horríveis, como vender nossas filhas como escravas (Êxodo 21:7) e assassinar parentes que abracem outras religiões (Deuteronômio 13:7). Se julgamos que a ética se aprende através de exemplos livrescos, sugiro trocar as Escrituras pelo mais benigno Marquês de Sade.

OK. Alguém pode argumentar que essa professora é uma exceção. Afinal, ela parece estar sustentando a inerrância da Bíblia, conceito que, no Brasil, é defendido por poucas religiões, notadamente adventistas e testemunhas de Jeová. Para as demais, as Escrituras não precisam e nem podem ser tomadas ao pé da letra.

Admito que essa mudança de discurso nos livra de algumas das dificuldades mais vexatórias –já não precisamos conciliar o criacionismo da Terra jovem com as aulas de ciência–, mas nem de longe acaba com elas.

Como já expliquei numa coluna antiga, embora seja em teoria possível juntar uma teologia um bocadinho mais sofisticada com a seleção natural neodarwinista, essa conciliação acaba resultando num Deus menos atuante, que cria as leis do universo e se retira. Ocorre que esse é o Deus de Newton e de Leibniz, mas não o das pessoas que vão a cultos. Para elas, um Deus que não ouve preces e não interfere nos destinos dos humanos é inútil. E esse Deus que elas querem –e que os sacerdotes pretendem colocar nas aulas de religião– é, pelo menos no plano psicológico, incompatível com a ciência contemporânea que deveria ser ensinada nas escolas.

Não estou evidentemente sugerindo que as pessoas devam rifar Deus para ficar com a ciência. Essa é a minha opção, mas não acho que deva impô-la a ninguém. O simples fato de uns 90% da humanidade manifestar preferências religiosas é um bom indício de que essa é uma característica da espécie, como a tendência a gostar de música ou aquela quedinha por substâncias psicoativas. A verdade é que o ser humano tem algo de esquizofrênico. Só conseguimos conchavar crenças religiosas, que de algum modo acabam apelando ao impossível ou improvável, com o rigor lógico exigido pelo método científico, porque nosso cérebro está dividido em módulos. “Grosso modo”, quando a parte responsável pelo pensamento lógico está ativa, inibe a área da religião, e vice-versa. Com esse mecanismo, as contradições, quando não passam despercebidas, tornam-se digeríveis.

Até para facilitar esse processo, não convém que religião e ciência sejam ensinadas no mesmo espaço. Para que a criançada aprenda desde cedo a distinguir o discurso do “lógos” (científico) do do “mythos” (religioso), é melhor que a escola trate apenas da ciência e que a religião fique a cargo dos templos.

Cuidado, não estou afirmando que não seja possível estudar a religião com ferramentas científicas. Em princípio, a sociologia, a antropologia, a psicologia e a neurociência estão aí para isso. Mas convém lembrar que estamos falando aqui de crianças de 6 a 15 anos, muitas das quais mal conseguem aprender português e as operações aritméticas básicas. Não me parece que a abordagem científica da religião deva ocupar um lugar muito alto na lista de prioridades. De resto, duvido que o lobby que advoga pelo ensino religioso esteja ansioso para ver a fé submetida a exame crítico.

Para além da cabeça da garotada, o ensino religioso na rede oficial também gera uma série de problemas institucionais. Como eu escrevi em texto que acompanhou a reportagem principal, a existência dessa disciplina em escolas públicas fere a separação entre Estado e igreja.

Pelo menos em teoria, o Brasil é um Estado laico. Não há religião oficial e o artigo 19 da Constituição proíbe expressamente o poder público de estabelecer cultos religiosos, subvencioná-los ou manter com eles relações de dependência ou aliança. É claro que a teoria soçobra antes mesmo de chegarmos ao artigo 19. O próprio preâmbulo da Carta invoca a “proteção de Deus”, e o artigo 210 prevê o ensino religioso nas escolas públicas de ensino fundamental.

Vale aqui observar que a única Constituição verdadeiramente laica que tivemos foi a de 1891, que rompeu com a Igreja Católica e eliminou quase todos os seus privilégios. As que a sucederam reintroduziram o ensino religioso.

Embora doutrinadores gostem de dizer que não há contradição entre os artigos 19 e 210, é forçoso reconhecer que colocá-los lado a lado gera pelo menos um mal-estar. Não é o único. A diferença é que, ao contrário de outros estrépitos constitucionais, que conseguem passar relativamente despercebidos, esse está produzindo consequências.

Por considerar que o Estado não pode regular matéria religiosa sem romper sua neutralidade diante delas (que caracteriza o laicismo), o CNE (Conselho Nacional de Educação) optou por não fixar parâmetros curriculares nacionais para a disciplina. A decisão é institucionalmente correta (e constitui uma prova indireta do erro que foi colocar o ensino religioso na escola pública), mas gerou um deus nos acuda, onde cada Estado definiu ao sabor da conjuntura política local como a matéria seria ministrada.

As pesquisadoras Debora Diniz, Tatiana Lionço e Vanessa Carrião, em “Laicidade e Ensino Religioso no Brasil”, traçam um panorama desse pequeno caos.

Pelo que elas puderam levantar, Acre, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro optaram por um sistema confessional, que não se distingue da educação religiosa oferecida em escolas ligadas a igrejas. Não é preciso PhD em Direito para constatar que esse tipo de ensino afronta o dispositivo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação que veda o proselitismo no ensino religioso.

Os demais Estados menos São Paulo escolheram o modo interconfessional, no qual as religiões hegemônicas se unem contra as mais fracas e contra ateus e agnósticos para definir um núcleo de valores a ser ensinado aos alunos. Tampouco é um exemplo de defesa dos direitos das minorias.

Apenas São Paulo fez uma leitura um pouco mais crítica dos mandamentos constitucionais e se definiu pelo ensino não confessional. Pelo menos no papel, aqui as crianças têm aulas de história das religiões, no que é provavelmente a única forma de juntar sem produzir muitas fagulhas o ensino religioso com o princípio da separação entre Estado e religião.

Resta apenas responder porque a laicidade é assim tão importante. O problema com as religiões reveladas é que elas trazem absolutos morais. Se a lei foi baixada pelo Altíssimo, apenas querer discuti-la já representaria uma segunda ofensa contra o Criador. E utilizar absolutos na política –religiosos ou ideológicos– é ruim porque eles a descaracterizam como instância de mediação de conflitos. O remédio contra isso, como já intuíram no século 18 os “philosophes” do Iluminismo francês e os “founding fathers” dos EUA, é a separação Estado-igreja. Ela facilita o advento da política como arte da negociação e, mais importante, favorece a noção de que minorias têm direitos que devem ser protegidos mesmo contra a maioria. Aqui, paradoxalmente, o laicismo se torna a principal força a proteger as religiões umas das outras.

Hélio SchwartsmanHélio Schwartsman, 44 anos, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou “Aquilae Titicans – O Segredo de Avicena – Uma Aventura no Afeganistão” em 2001. Escreve para a Folha.com.